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Aeromoça da American Airlines em Nova York

É um dia típico para as comissárias de bordo no voo 710 da American Airlines, um 737-800 que vai de Dallas a Nova York com horário de partida marcado para 9h05.

Enquanto Debbie Nicks, de 56 anos, trabalha na cozinha da primeira classe, fazendo café e pendurando os paletós dos passageiros, dá uma rápida olhada para a rampa de entrada e percebe um amontoado de pessoas em frente ao portão. Um voo anterior para Nova York foi cancelado e as pessoas daquele voo estão desesperadas para entrar neste.

É uma cena familiar hoje em dia, com tantos aviões voando no limite de sua capacidade. Debbie, portanto, prossegue com sua rotina normal, fazendo os anúncios para os passageiros a bordo, lembrando-os de cuidar para que toda a bagagem de mão esteja guardada nos bagageiros ou embaixo do assento que fica à frente deles.

Ser aeromoça mudou minha vida!

Na classe econômica, Anna Wallace McCrummen, de 45 anos, organiza o carrinho com as bebidas e a comida que será vendida e que mais tarde será empurrado pelo estreito corredor. Depois pega um pequeno martelo de borracha azul para bater em um saco de cubos de gelo que se fundiram em um bloco sólido. Ela martela várias vezes, talvez um pouco intensamente demais, enquanto o som ecoa pelas paredes da pequena cozinha.

Enquanto isso, na cabine principal, Jane Marshall, de 50 anos, anda pelo corredor, confere se as pessoas estão encontrando seus lugares corretos, observando atentamente quais os passageiros que trouxeram malas que ela sabe que não vão caber nos bagageiros e tentando dissipar quaisquer situações tensas que possam evoluir para crises. Mas talvez já seja tarde demais. Duas mulheres que receberam a mesma reserva estão com suas malas de rodinhas firmemente plantadas ao lado, mostrando que não têm a intenção de se mover.

“Que confusão”, queixa-se Jane, assim que foram encontrados lugares para as mulheres com a mesma reserva e a fila de passageiros à espera de um assento é transferida de lugar. Só então, depois que cada um dos espaços foi ocupado, as portas dos bagageiros fechadas, equipamentos eletrônicos guardados e o sinal de “afivelem seus cintos” aceso, as três mulheres finalmente acomodam-se em seus bancos retráteis para um dos poucos momentos de alívio durante o dia de trabalho.

Nas próximas 11 horas, elas voarão de Dallas para Nova York e de volta, uma rotina que é totalmente natural para elas. Ao todo, as três juntas têm quase 70 anos de experiência como comissárias de bordo.

E hoje eu sou uma delas.

Para apresentar um olhar de bastidores do outro lado das viagens aéreas, vesti um conjunto azul-marinho e uma camisa branca engomada no início deste verão e tornei-me comissária de bordo durante dois dias. Com a cooperação da American Airlines, primeiro fui para uma escola de treinamento de comissárias de bordo na Flagship University da empresa, em Fort Worth, no Texas.

Aprendi o que fazer em caso de emergência a bordo, desde como abrir uma janela com saída de emergência em um 777 (é muito mais pesada do que se pensa) a operar um desfibrilador (existem fotos para ajudar a colocar as placas no lugar correto). Depois voei três vezes em dois dias: uma ida e volta entre Dallas e Nova York e depois de volta para Nova York no dia seguinte.

E embora as outras comissárias de bordo soubessem que eu era alguém de fora, os passageiros não sabiam. Dessa forma eu passei por uma experiência sobre o que a equipe de uma empresa aérea tem enfrentado atualmente – e, depois de apenas um dia no trabalho, comecei a me indagar sobre o motivo por que a expressão “descontrole em pleno voo” é usada apenas para passageiros.

Acredite, havia algumas pessoas, como o exigente passageiro na primeira classe que vociferava pedindo bebidas durante o voo (até que finalmente perdesse a consciência), para quem eu teria ficado mais que feliz em mostrar a saída, particularmente quando estávamos a 35 mil pés de altura.

Como é ser uma comissária de bordo hoje em dia? Isso é o que eu costumo indagar a mim mesma ao ocupar o meu assento, esperando impacientemente enquanto outro voo é adiado e a minha conexão ameaçada. Enquanto ao meu redor os passageiros brigam uns com os outros por causa da falta de espaço nos bagageiros, ou queixam-se de ter sido eliminados de um voo anterior, ou juram “nunca mais” voar por essa empresa aérea por terem sido encaixados em um assento no meio da fileira mesmo que tenham feito sua reserva há seis meses.

Será que existe uma ocupação menos invejável, mais estressante hoje em dia, do que a de comissária de bordo?

Basta olhar para o rosto delas enquanto andam pelos corredores – dizendo aos passageiros que não importa quantas vezes eles tentem espremê-las, suas maletas não vão caber nos bagageiros, ou explicando mais uma vez que eles não vão receber uma única porção de comida decente nesse voo de três horas – que você vê tudo o que precisa saber sobre seus tormentos.

Eu tinha uma impressão que foi confirmada quando visitei por um chat para comissárias de bordo na Internet, airlinecrew.net, e cruzei com posts como este: “Sou comissária de bordo há seis anos e o que posso dizer é que se eu ainda for comissária de bordo em 20 anos, serei uma p* enfurecida!”

Não foi sempre assim, é claro. Em 1967, o best seller “Cofee, Tea or Me?” (“Café, Chá ou Eu?”), com, o subtítulo “As memórias desinibidas de duas aeromoças”, retratava a vida no ar como uma festa contínua, para a qual os autores sentiram-se privilegiados por terem sido convidados. Outro item dos anos 1960, a peça “Boeing, Boeing“, recentemente reapresentada na Broadway em uma produção premiada com o Tony, também retratava a vida das aeromoças (nome pelo qual eram chamadas na época) como cheia de travessuras glamourosas, com pretendentes em todos os portos.

Mais recentemente, os executivos de publicidade do seriado de TV “Mad Men” ficaram entusiasmados ao entrar na concorrência para conquistar a conta de uma empresa aérea, não só pelo que o negócio renderia, mas também porque participariam das sessões de escolha das aeromoças para os anúncios e poderiam viajar de graça. Ora, tão divertido!

Pode apostar que nada que se refira a viagens aéreas hoje em dia inspiraria tal êxtase.

De fato, as comissárias de bordo com as quais passei meu tempo em três voos apresentaram uma visão sombriamente realista de seus trabalhos, conscientes de que as explosões temperamentais – “As pessoas simplesmente tornam-se grosseiras,” disse Jane Marshall – são de certa forma uma reação compreensível ao processo que os próprios passageiros precisam enfrentar ao tentar se deslocar. “Depois de terem sido importunados pela segurança, somos as primeiras pessoas que eles encontram,” disse Debbie Nicks, explicando porque um inconveniente de menor importância, como o fato de saber que não há fones de ouvidos, pode levar alguém a ter um ataque. “Sua polida personalidade só vai até um determinado ponto,” acrescenta Jane.

Certamente a lição que aprendi rapidamente – assim como conferir o fechamento das portas e ver que os informais sapatos Dansko são os preferidos entre as comissárias experientes – foi dizer “não” polidamente. Não ao jovem homem indiano que pediu um cobertor para sua mãe que estava com calafrios em seu sari, ao lado dele (não havia sobrado nenhum).

Não, ao faminto passageiro que queria comprar um cookie (nós já tínhamos vendido os únicos dois que havia em estoque para o voo).

Não ao homem que, como muitos de seus companheiros de viagem, estava preocupado com o fato de não conseguir chegar a tempo para sua conexão por causa da demora na partida e implorava: “você poderia telefonar e se informar?” (lamento, aqui o está número de atendimento ao cliente que você pode tentar quanto aterrissarmos.)

Também fiz um curso rapidíssimo em gerenciamento de estresse. Meu voo de volta de La Guardia estava tão lotado quanto o da manhã para vir de Dallas, e os passageiros estavam ainda mais irritados. O avião deveria ter decolado às 16h25, mas às 17h os passageiros ainda estava embarcando, com muitos já ansiosos em relação aos seus voos de conexão.

Enquanto isso, duas comissárias de bordo de voos de curtas distâncias vieram a bordo para ocupar os assentos dobráveis. Jennifer Villavicencio, de 35 anos, mãe de duas crianças, de Maryland, estava acordada desde as 5h, trabalhando em uma viagem com quatro voos – Nova York para Chicago, de Chicago para Saint Louis, de Saint Louis para Chicago e de Chicago para Nova York. Como a mais nova comissária de bordo em “reserva”, a maior parte de seu trabalho consiste em não ter horários pré-determinados. Às vezes ela passa dias longe de seus filhos, deixando-os com a mãe em Dallas, quando trabalha fora de Nova York.

No intervalo entre os turnos, Jennifer divide com outras comissárias de bordo um apartamento temporário para tripulantes em Queens, com quatro quartos. Ela dorme em uma chamada “cama quente” (um leito que é ocupado por várias pessoas em diferentes horários), leva seus próprios lençóis e ocupa qualquer um dos 26 lugares que estiver disponível nos beliches, quando chega.

“Gosto de ficar no de cima,” diz ela, “porque dá para sentar direito”. Nossa conversa foi interrompida por algumas notícias vindas do agente dos portões de embarque: o avião deverá ser transferido para outra pista. “Oh, Deus, mais drama,” diz Anna, explicando-me o que estava prestes a acontecer. “Quando estamos em pleno verão, está quente e as pistas são curtas, não se pode ter peso demais porque não dá para decolar. Como estamos trocando de pista eles vão impor restrições ao excesso de peso e vão tirar pessoas por causa disso.”

Jennifer ficou atenta. Como comissária de aviões de curta distância ela sabia que o seu lugar estaria entre os primeiros a serem cortados se o voo fosse considerado pesado demais para a nova pista. Então, começou a contar o número de crianças a bordo, um fator que poderia minimizar de imediato a questão do peso, se houvesse um número suficiente delas. Por sorte, havia 11 – o suficiente para salvar outros passageiros de serem obrigados a sair.

Às 17h49, o avião finalmente decolou, com mais de uma hora de atraso.

Eu ouvira dizer que trabalhar na primeira classe era mais difícil que na classe econômica, então fui me unir a Debbie na frente do avião. Quando cheguei, Debbie já havia anotado os pedidos de bebida dos passageiros, preenchendo a relação com uma caligrafia elegante: 3A-BMary, B-RW, E-Vodca tônica, etc., em uma lista colada a um armário.

Ela me avisou que o passageiro do 4B, um jovem corpulento com um iPod, já estava se mostrando difícil. Ele havia tomado um analgésico para um punho enfaixado quando entrou a bordo, imediatamente seguido de um uísque com Coca-Cola. Depois sorveu uma Heineken e agora queria uma taça de vinho, não em um daqueles copos de tamanho comum, mas em um grande copo de coquetel.

Lembrei-me do que uma comissária de bordo havia contado quando perguntei o que fazer quando parece que um passageiro está bebendo demais: dê água a ele. Na classe econômica, onde os viajantes misturam seus próprios drinques, algumas comissárias inventaram suas próprias regras – “só posso vender uma bebida por hora”.

A primeira classe é intimidante. E eu, francamente, não fui de grande ajuda, achando que tudo que eu realmente conseguiria fazer era entregar e recolher as toalhas quentes. Debbie, porém, realizou em pleno voo uma série de manobras culinárias tão exigentes que inspiraria um desafio no programa de televisão “Top Chef”, do canal Bravo: prepare uma refeição, com vários pratos, em pleno ar, num estreito corredor entre dois fornos a 135ºC e uma máquina de café quente.

Com o passar do tempo, o passageiro do 4B finalmente adormeceu; a sobremesa foi servida e as comissárias estavam fatigadas. Jennifer, que nem estava em serviço, com pena de uma mãe com uma criança que não parava de chorar, ficou andando com ela de um lado para o outro no corredor. Depois, cuidou de outra criança pequena, deixando-a segurar a outra ponta de uma sacola ao recolher os restos deixados pelos passageiros.

O voo chegou a Dallas às 20h02, com 52 minutos de atraso. Debbie, Jane e Anna receberiam pelo tempo real de voo de quase oito horas para as duas partes da jornada de ida e volta. Elas também recebem uma ajuda de custo de US$ 1.50 por hora passada em viagem (no caso de certos atrasos, a American diz que suas comissárias de bordo recebem um extra de US$ 15 por hora, proporcional ao tempo real, menos um prazo de carência de 30 minutos).

Os horários dos comissários de bordo costumam ser arruinados pelos atrasos e assim que o setor de empresas aéreas entrou num acentuado declínio econômico depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, muitos funcionários do setor tiveram significativos cortes salariais e reduções em benefícios para ajudar as empresas aéreas a continuar nos negócios.

Existem cerca de 100 mil comissários de bordo nos Estados Unidos, segundo a Associação dos Comissários de Bordo (Association of Flight Attendants), menos que os cerca de 125 mil de 2000. Dependendo da empresa, os comissários ganham entre 7% e 20% menos hoje que antes do 11/09, segundo a associação. O salário médio de um comissário atualmente é de cerca de US$ 33.500 por ano.

Já existem menos comissários trabalhando em cada voo  A maior parte das companhias aéreas agora segue o número mínimo exigido pela Administração Federal da Aviação (FAA, na sigla em inglês) – um comissário para cada 50 passageiros. E embora os benefícios, como os três voos para toda a família, ainda existam no papel, são difíceis de conseguir, pois as empresas continuam lotando os aviões com passageiros pagantes. Em outras palavras, não é mais tão divertido.

Certamente há uma grande diferença em relação aos anos do “Café, Chá ou Eu?”. “Quem pensaria, depois de 30 anos, que nós seríamos uma loja de conveniência voadora?”, comentou Becky Gilbert, uma veterana de três décadas no setor, durante um intervalo em nossa sessão de treinamento em Fort Worth. “Sabe, é que eu costumava servir omeletes e crepes no café da manhã, e agora é ‘o senhor gostaria de comprar batatas fritas ou cookies de chocolate por US$ 3?'”

Quando Anna, Jane e Debbie tornaram-se comissárias de bordo há mais de 20 anos, rotinas tediosas como recolher o lixo deixado pelos passageiros eram compensadas pelos privilégios e status de quase-celebridades que vinham com o trabalho. “Quando caminhávamos pelo terminal, todo mundo olhava para nós,” diz Jane, entre mordidas em uma pizza, num intervalo para café em La Guardia, de costas para um grupo de viajantes que não davam a menor importância ao seu conjunto azul-marinho, ou às asas douradas na maleta negra de rodinhas ao seu lado.

“Era o que as pessoas costumavam fazer,” continua Debbie, uma comissária de bordo muito bem cuidada, com o cabelo grisalho cortado rente e acessórios de ouro, que depois de 23 anos voando com Jane, completa as frases da colega. “Qual a garota que não queria ser uma aeromoça?”

“Eram as paradas em trânsito de antes que tornavam tudo gglamouroso, explica Anna. “Trabalhávamos em uma viagem para San Diego e logo estávamos lá, sentadas em uma praia, uma margarita nas mãos e o pensamento, ‘e ainda estou ganhando para ficar aqui!’ Isso era antigamente. Agora, nós nos arrastamos para a cama, pensando, “Espero que o meu despertador funcione.”

Por sorte, na manhã seguinte, às 4h,o meu funcionou. Com não mais de cinco horas de sono e sem café, pois o serviço de café para viagem do hotel ainda não estava aberto, peguei o ônibus das 5h para o aeroporto. Depois de passar aos tropeções pela segurança, cheguei ao portão, uma hora antes da partida, como o exigido – com os olhos inchados e abatida.

Quando encontrei com a tripulação com a qual iria trabalhar, um jovial grupo que costuma voar junto, eu os adverti de que poderia ser uma inútil. Eles foram compreensivos. David Macdonald, de 51 anos, comissário de bordo há 28 anos, estava em seu quarto dia seguido de voos. Elaine Sweeney, 55 anos, que trabalha na American há 30 anos, estava no terceiro dia. E Tim Rankin, de 56, um veterano de 32 anos, estava em seu terceiro voo em 24 horas.

Parada no corredor do lotado MD-80, Elaine garantiu que os passageiros, em sua maior parte viajantes a negócios, seriam relativamente bem-comportados. “Este voo é tão cedo,” disse ela, “que geralmente metade deles adormece.”

Tanto quanto as comissárias de bordo com quem trabalhei antes, meus novos companheiros descreveram seu trabalho como uma atividade na qual é preciso checar constantemente o estado de espírito dos passageiros. “Num mês típico,” disse Tim, “serei um professor, um pastor, um conselheiro, um mediador.” Movimenta seus 1,80 m de altura pelo pequeno espaço entre o cockpit e o banheiro da primeira classe, depois se joga pesadamente sobre o assento dobrável e emite um suspiro quase inaudível. “Terei de dizer às pessoas que uma mala de 90 centímetros de profundidade não vai caber em um espaço de 46 centímetros,” comentou.

“As pessoas precisam compreender que as normas de convívio social não deixam de existir quando se entra em um avião,” ele acrescenta com seu forte tom texano nasalado, aumentando ao recitar seus mandamentos. “Não se pode fazer sexo em um avião. Quando alguém compra uma passagem, não recebe o privilégio de gritar comigo. O bilhete também não dá a ninguém o direito de sentar onde quiser. Há um lugar marcado. Não tenho um avião extra no meu bolso se o voo está atrasado.”

Elaine interrompe acrescentando: “nós dizemos brincando que as pessoas deixam de usar o cérebro quando embarcam.”

Quando aterrissei em Nova York às 11h04, eu estava acabada. Ficar de pé na maior tempo do voo, que incluiu um breve período de turbulência, desarranjou meu estômago e me fez perder o apetite. Meus pés doíam. Eu não sentia mais meus dedinhos do pé.

Antes de desembarcarmos, Tim, em um gesto comovente, cerimoniosamente me deu suas asas douradas. Eu então me arrastei pelo terminal, passei por um grande grupo de passageiros descontentes, reunidos em torno do portão, ansiosos por embarcar no avião.

Estava contente por ir para casa.

Foto: sflovestory

1 Comentário

  1. como faço pra fazer o curso de comissária nos eua? algumas pessoas falam que precisa ter o green card para fazer/trabalhar como aeromoça..

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