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Aeromoça: 80 anos em atividade!

Aos 80 anos, a aeromoça há mais tempo em atividade no país revela sua história .Fazer o que mais ama na vida é para poucos. E o que dizer então de descobrir uma paixão por algo que nada tinha a ver com sua rotina, conhecimentos ou gostos? Para Alice Editha Klausz, a aeromoça há mais tempo em atividade no país (e, quem sabe, no mundo), sua carreira na aviação começou quase que por acaso, quando ela descobriu sobre uma certa empresa aérea que estava contratando em sua região. A empresa era a Varig e a região, o belo Rio Grande do Sul.

DE LIVROS A AVIÕES

“Tudo começou em 1947, quando me formei em Biblioteconomia”, conta Tia Alice, como gosta de ser chamada. “Na época, fui chamada para organizar a biblioteca do Daer (Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem) do RS, além de ajudar nas primeiras bibliotecas circulantes do Sesi e Sesc. Era um trabalho gratificante, mas eu não era feliz lá,” revela. Por conta de dificuldades financeiras da repartição pública, Alice não conseguia realizar seu trabalho como gostaria. Até que, em 1954, novos ventos atingiriam sua vida.

A jovem bibliotecária tomou conhecimento de um anúncio. Uma empresa aérea estava em processo de seleção para contratar jovens, do sexo feminino, que dominassem no mínimo dois idiomas estrangeiros (algo, na época, extraordinário e raro) para voar nas linhas internacionais. Alice resolveu se candidatar, afinal, seu desejo por conhecer o mundo era grande, e voar poderia facilitar isso. Ela poderia afastar-se por dois anos do Daer, através de uma licença que permitia seu retorno, caso não se adaptasse ao novo trabalho.

Já na Varig, a empresa em questão, Alice passou por testes escritos, teóricos e médicos, obtendo sua aprovação, ingressando em seu novo trabalho no primeiro dia de agosto de 1954. Junto com cerca de 20 outras jovens, ela fez parte da Primeira Turma de Aeromoças da Varig, na época em que a operadora havia acabado de comprar o Super Constellation para voar. “Foi engraçado pois em suas aeronaves, a Varig só tinha homens. O Clube do Bolinha acabou quando entramos”, diverte Tia Alice.

OS PREPARATIVOS

A idéia era que as moças contratadas deveriam atender crianças e senhoras nos vôos da empresa. Para isso, Alice e suas colegas de trabalho passaram inicialmente por cursos capacitadores, para voar nos DC-3 e C-46, até a chegada do modelo Super Constellation, em 1955. Graças a seus conhecimentos de Biblioteconomia, Alice ganhou destaque quando desenvolveu um manual de vôo. Seu chefe na época, Ruben Martin Berta, então presidente da Varig, colocou a sua disposição uma sala com datilógrafa, desenhista e solicitou que ela produzisse os manuais para a empresa. “Isso me chateou um pouco, eu queria era voar”, lembra Tia Alice.

O que Alice não esperava, é que ela ia continuar voando, mesmo neste cargo. Para enriquecer sua bagagem de conhecimentos, foi enviada para a Suíça. Lá, ela participou de cursos hoteleiros, de aviação e ao final fez uma viagem ao redor do mundo acompanhada da chefe de aeromoças da SwissAir. Quando retornou ao Brasil, foi nomeada instrutora da Varig, tendo em suas mãos a tarefa de organizar a escola de aviação da empresa. Na época, o administrativo da Varig foi transferido para o Rio e Alice assumiu a fiscalização de dois hotéis que faziam parte da Real Aerovias, na Bahia, desempenhando esta função até quando a empresa aérea adquiriu as operações da Pannair do Brasil Uma nova viradas dos ventos passaria por sua vida.

DIFICULDADES E SUPERAÇÃO

“O Sr. Berta me chamou para acompanhar e organizar os despachos da empresa na Europa, mas não pude. Adoeci e fiquei algum tempo sem trabalhar. Quando retornei, em 1966, o Sr. Berta havia falecido, foi muito triste”, relembra a emocionada Tia Alice. O novo presidente, Erik de Carvalho, solicitou que ela reorganizasse a Escola de Aeromoças, no Rio de Janeiro, em 1967. “Dirigi a escola até a minha aposentadoria, em 1989”, conta.

Foi no mesmo ano que Tia Alice tomou conhecimento do Proantar (Programa Antártico Brasileiro), programa de pesquisa do Brasil no continente gelado, através de um amigo, Jean Gilbert Rousselet. “O Sr. Rousselet era sempre convidado para realizar os vôos para a Antártica mas dificilmente podia ir, por questões de compromisso profissional. Então ele me informou que a Varig colaborava com a missão, fornecendo lanches para a tripulação e me perguntou se eu estaria interessada em participar. Aceitei na hora”, revela.

Foi uma longa espera até ser chamada, praticamente quase o ano de 89 inteiro. “Quando o Proantar me telefonou, em setembro, eu quase caí da cadeira, nem acreditei de início. No dia do vôo, apresentei-me no CAN (Correio Aéreo Nacional) e embarquei no Hércules C-130, assim como embarquei também em uma nova e emocionante etapa da minha vida”, recorda Tia Alice. “Ao chegar na Base Chilena Eduardo Frei, nosso ponto de aterrissagem na Antártica, não me contive de tanta emoção. Todo aquele branco, lindo, um cenário que não cabe em palavras para ser descrito”, completa.

NOVA VIDA NO GELO

Com mais de 100 viagens colecionadas, sua missão é tão singela quanto fundamental para o programa. Tia Alice é encarregada de servir os lanchinhos dos passageiros, geralmente militares e cientistas, nos grandes e desconfortáveis aviões de carga da Força Aérea Brasileira (FAB). Ela gosta de frisar que, com 35 anos de serviços, entrou no Proantar sem qualquer remuneração. “Tenho 50 anos de aviação e digo que cada vôo é diferente, graças à presença de pesquisadores, militares, civis, políticos e até pingüins perdidos que levamos de volta”, conta. Durante o vôo, sua preocupação em atender bem os passageiros é tanta que só bebe água. “Prefiro me alimentar nos aeroportos e nas cidades de pernoite, Pelotas, no Rio Grande do Sul, e Punta Arenas, no Chile”.

Para ela todos os passageiros do Hércules são considerados VIPs, com tratamento exemplar. Para essa tarefa, conta com o apoio de alguns rapazes da Marinha e da FAB. Afinal, são seis lanches e dois almoços para cada um. Os pilotos, mecânicos e engenheiros de vôo têm dois almoços e um lanche adicionais. Tudo funciona graças à organização estabelecida por ela no início dos anos 90 pois, ao fazer seu primeiro vôo, observou algumas irregularidades. Então, foi pessoalmente até o então presidente da Varig, Hélio Smith, solicitar autorização para propor a modificação de todo o serviço de bordo, sem ônus. Com a autorização na mão, foi para Brasília. Assim, conseguiu treinar novas equipes.

HONRAS AO MÉRITO

Sempre impecável, Tia Alice enverga seu uniforme de comissária. A lapela do bolso esquerdo, cinco rosetas das medalhas que recebeu: Mérito Santos Dummont, Mérito Tamandaré, do Pacificador, Ordem do Mérito Aeronáutico e da Vitória. Na gola, uma asa concedida pelo comandante da aeronáutica. Abaixo das rosetas está o pingüim de ouro que recebeu da Marinha quando completou seu centésimo vôo. Para ir da base Eduardo Frei, até a base brasileira Estação Antártica Comandante Ferraz, na Ilha Rei George, o deslocamento é por helicóptero. Mas só embarcam pesquisadores e personalidades. Alice só foi até lá três vezes, O que considera uma honra.

Dentro do Hércules, ida e volta para o gelo são mais de 20 horas. O avião militar não possui poltronas, apenas bancos laterais. Com capacidade para 80 passageiros, certa vez, tiveram que dividir as acomodações com um helicóptero avariado. “Tudo isso é muito gratificante para mim, por isso não pretendo parar tão cedo. Só irei me aposentar em duas hipóteses: não ser mais convidada ou por motivo de saúde. Se tiver que parar por outro motivo, encontrarei algo para fazer. Estou com 80 anos, mas a vida não acabou. A gente passa a maior parte da vida fazendo o que não gosta e tendo que aprender a gostar. Temos que aproveitar o agora para fazer o que se ama. Nunca é tarde”, ressalta.

Com mais de 80 anos de idade, a aeromoça há mais tempo em atividade no país revela sua história.

Fazer o que mais ama na vida é para poucos. E o que dizer então de descobrir uma paixão por algo que nada tinha a ver com sua rotina, conhecimentos ou gostos?

Comissários de bordo: cursos, escolas, emprego…

Para Alice Editha Klausz (foto), a aeromoça há mais tempo em atividade no país (e, quem sabe, no mundo), sua carreira na aviação começou quase que por acaso, quando ela descobriu sobre uma certa empresa aérea que estava contratando em sua região. A empresa era a Varig e a região, o Estado do Rio Grande do Sul.

“Tudo começou em 1947, quando me formei em Biblioteconomia”, conta Tia Alice, como gosta de ser chamada. “Na época, fui chamada para organizar a biblioteca do Daer (Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem) do RS, além de ajudar nas primeiras bibliotecas circulantes do Sesi e Sesc. Era um trabalho gratificante, mas eu não era feliz lá,” revela. Por conta de dificuldades financeiras da repartição pública, Alice não conseguia realizar seu trabalho como gostaria. Até que, em 1954, novos ventos atingiriam sua vida.

A jovem bibliotecária tomou conhecimento de um anúncio. Uma empresa aérea estava em processo de seleção para contratar jovens, do sexo feminino, que dominassem no mínimo dois idiomas estrangeiros (algo, na época, extraordinário e raro) para voar nas linhas internacionais. Alice resolveu se candidatar, afinal, seu desejo por conhecer o mundo era grande, e voar poderia facilitar isso. Ela poderia afastar-se por dois anos do Daer, através de uma licença que permitia seu retorno, caso não se adaptasse ao novo trabalho.

aeromoca_aliceJá na Varig, a empresa em questão, Alice passou por testes escritos, teóricos e médicos, obtendo sua aprovação, ingressando em seu novo trabalho no primeiro dia de agosto de 1954. Junto com cerca de 20 outras jovens, ela fez parte da Primeira Turma de Aeromoças da Varig, na época em que a operadora havia acabado de comprar o Super Constellation para voar. “Foi engraçado pois em suas aeronaves, a Varig só tinha homens. O Clube do Bolinha acabou quando entramos”, diverte Tia Alice.

A idéia era que as moças contratadas deveriam atender crianças e senhoras nos voos da empresa. Para isso, Alice e suas colegas de trabalho passaram inicialmente por cursos capacitadores, para voar nos DC-3 e C-46, até a chegada do modelo Super Constellation, em 1955. Graças a seus conhecimentos de Biblioteconomia, Alice ganhou destaque quando desenvolveu um manual de voo. Seu chefe na época, Ruben Martin Berta, então presidente da Varig, colocou a sua disposição uma sala com datilógrafa, desenhista e solicitou que ela produzisse os manuais para a empresa. “Isso me chateou um pouco, eu queria era voar”, lembra Tia Alice.

O que Alice não esperava, é que ela ia continuar voando, mesmo neste cargo. Para enriquecer sua bagagem de conhecimentos, foi enviada para a Suíça. Lá, ela participou de cursos hoteleiros, de aviação e ao final fez uma viagem ao redor do mundo acompanhada da chefe de aeromoças da SwissAir. Quando retornou ao Brasil, foi nomeada instrutora da Varig, tendo em suas mãos a tarefa de organizar a escola de aviação da empresa. Na época, o administrativo da Varig foi transferido para o Rio e Alice assumiu a fiscalização de dois hotéis que faziam parte da Real Aerovias, na Bahia, desempenhando esta função até quando a empresa aérea adquiriu as operações da Pannair do Brasil. Uma nova viradas dos ventos passaria por sua vida.

O Sr. Berta me chamou para acompanhar e organizar os despachos da empresa na Europa, mas não pude. Adoeci e fiquei algum tempo sem trabalhar. Quando retornei, em 1966, o Sr. Berta havia falecido, foi muito triste”, relembra a emocionada Tia Alice. O novo presidente, Erik de Carvalho, solicitou que ela reorganizasse a Escola de Aeromoças, no Rio de Janeiro, em 1967. “Dirigi a escola até a minha aposentadoria, em 1989”, conta.

Foi no mesmo ano que Tia Alice tomou conhecimento do Proantar (Programa Antártico Brasileiro), programa de pesquisa do Brasil no continente gelado, através de um amigo, Jean Gilbert Rousselet. “O Sr. Rousselet era sempre convidado para realizar os voos para a Antártica mas dificilmente podia ir, por questões de compromisso profissional. Então ele me informou que a Varig colaborava com a missão, fornecendo lanches para a tripulação e me perguntou se eu estaria interessada em participar. Aceitei na hora”, revela.

Foi uma longa espera até ser chamada, praticamente quase o ano de 89 inteiro. “Quando o Proantar me telefonou, em setembro, eu quase caí da cadeira, nem acreditei de início. No dia do voo, apresentei-me no CAN (Correio Aéreo Nacional) e embarquei no Hércules C-130, assim como embarquei também em uma nova e emocionante etapa da minha vida”, recorda Tia Alice. “Ao chegar na Base Chilena Eduardo Frei, nosso ponto de aterrissagem na Antártica, não me contive de tanta emoção. Todo aquele branco, lindo, um cenário que não cabe em palavras para ser descrito”, completa.

Com mais de 100 viagens colecionadas, sua missão é tão singela quanto fundamental para o programa. Tia Alice é encarregada de servir os lanchinhos dos passageiros, geralmente militares e cientistas, nos grandes e desconfortáveis aviões de carga da Força Aérea Brasileira (FAB). Ela gosta de frisar que, com 35 anos de serviços, entrou no Proantar sem qualquer remuneração. “Tenho 50 anos de aviação e digo que cada voo é diferente, graças à presença de pesquisadores, militares, civis, políticos e até pingüins perdidos que levamos de volta”, conta. Durante o voo, sua preocupação em atender bem os passageiros é tanta que só bebe água. “Prefiro me alimentar nos aeroportos e nas cidades de pernoite, Pelotas, no Rio Grande do Sul, e Punta Arenas, no Chile”.

Para ela todos os passageiros do Hércules são considerados VIPs, com tratamento exemplar. Para essa tarefa, conta com o apoio de alguns rapazes da Marinha e da FAB. Afinal, são seis lanches e dois almoços para cada um. Os pilotos, mecânicos e engenheiros de voo têm dois almoços e um lanche adicionais. Tudo funciona graças à organização estabelecida por ela no início dos anos 90 pois, ao fazer seu primeiro voo, observou algumas irregularidades. Então, foi pessoalmente até o então presidente da Varig, Hélio Smith, solicitar autorização para propor a modificação de todo o serviço de bordo, sem ônus. Com a autorização na mão, foi para Brasília. Assim, conseguiu treinar novas equipes.

Sempre impecável, Tia Alice enverga seu uniforme de comissária. A lapela do bolso esquerdo, cinco rosetas das medalhas que recebeu: Mérito Santos Dummont, Mérito Tamandaré, do Pacificador, Ordem do Mérito Aeronáutico e da Vitória. Na gola, uma asa concedida pelo comandante da aeronáutica. Abaixo das rosetas está o pingüim de ouro que recebeu da Marinha quando completou seu centésimo voo. Para ir da base Eduardo Frei, até a base brasileira Estação Antártica Comandante Ferraz, na Ilha Rei George, o deslocamento é por helicóptero. Mas só embarcam pesquisadores e personalidades. Alice só foi até lá três vezes, O que considera uma honra.

Dentro do Hércules, ida e volta para o gelo são mais de 20 horas. O avião militar não possui poltronas, apenas bancos laterais. Com capacidade para 80 passageiros, certa vez, tiveram que dividir as acomodações com um helicóptero avariado. “Tudo isso é muito gratificante para mim, por isso não pretendo parar tão cedo. Só irei me aposentar em duas hipóteses: não ser mais convidada ou por motivo de saúde. Se tiver que parar por outro motivo, encontrarei algo para fazer. Estou com 80 anos, mas a vida não acabou. A gente passa a maior parte da vida fazendo o que não gosta e tendo que aprender a gostar. Temos que aproveitar o agora para fazer o que se ama. Nunca é tarde”, ressalta.

Foto: Google Images

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